O termo em inglês self-compassion até que não assusta tanto, quanto a versão em português para a mesma expressão. Pelo menos foi assim comigo, quando comecei a pensar em auto-compaixão ou auto-piedade.
Parece quase um palavrão, não é?
A impressão que dá é que não somos autorizados a ter piedade de nós mesmos, é feio. Sempre temos que ser fortes, estar fortes, pensar em “bola pra frente”, e sair o mais rápido possível de uma situação que nos aparece e que muitas vezes é difícil.
Perdeu o emprego? Bola pra frente! Outros melhores virão, precisa logo começar a procurar.
Terminou um relacionamento? Bola pra frente! Ele não era a pessoa certa pra você, tem que se recuperar logo para poder encontrar outra pessoa, ou se encontrar!
Não foi aprovado em um teste que queria muito? Bola pra frente! Provavelmente aparecerão outros testes e você precisa se preparar melhor para poder fazer uma boa prova.
É o que sempre ouvimos dos nossos amigos e familiares, e também é o que queremos nos convencer!
E eu imagino que você deva estar pensando: mas devo então ficar remoendo, sofrendo e não dar um passo adiante para sair de onde estou?
Sei que a grande frustração que esse texto pode gerar é exatamente isso. Porque não tem resposta certa. Não tem a resposta de que: sim, você deve seguir em frente o quanto antes. Ou então a resposta: não, você tem que ficar sentindo e sofrendo por algo que não deu certo.
O que eu posso dizer, com a prática da atenção plena aos nossos momentos e aos nossos sentimentos, é que vejo hoje que o mais importante não é o resultado, e sim o processo.
Quebrando um pouco essa visão maniqueísta de certo x errado, proponho a reflexão: quantas vezes você já ajudou um amigo e uma situação difícil? Ou, pelo menos, sentiu uma certa compaixão e pensou com carinho sobre alguém que vemos que está sofrendo, sem a necessidade de achar uma solução para o problema dele(a)?
Provavelmente algumas vezes.
Lembra do Charles Darwin? Aquele cientista que escreveu a teoria mais aceita hoje sobre evolução das espécies, e que fala que “Não é o mais forte da espécie que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que mais se adapta à mudança “ “It is not the strongest of the species that survive, nor the most intelligent, but the one most responsive to change.” (On The Origin os Species, 1859)
Então, o mesmo Charles Darwin continuou seus estudos, e escreveu no seu livro The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex (1871) sobre a simpatia (que hoje chamamos de empatia, altruismo, ou compaixão), descrevendo comportamentos de humanos e outros animais e como eles ajudam outros passando por situações difíceis.
E olha que interessante: ele descreve que o ser atinge um mais alto grau moral quando se preocupa pelo bem estar de todos os seres vivos, humanos e não humanos.
Auto-Piedade ou Auto-Compaixão
E é aí que entra a auto-compaixão e a reflexão que eu proponho para você hoje.
Se podemos e somos seres dotados de compaixão por familiares, amigos, pessoas próximas ou mesmo pessoas que passamos a conhecer pela rede ou pela TV, porque é que não podemos sentir compaixão por nós mesmos?
A proposta aqui não é ficar remoendo, como escrevi antes. Nem passar por cima, sem sentir ou prestar atenção a você mesmo.
A proposta é perceber. É se perceber. Ver que o que está acontecendo é uma situação difícil. Validar que está sendo difícil. E que você pode ficar um pouco nela. Pode perceber como ela te afeta. Pode perceber de onde você tira forças para a mudança. E pode então ter mais consciência para seguir em frente.
Sem pular etapas.
Apenas percebendo e sentindo. E, cada vez mais, se conhecendo melhor.
Com muito carinho,
Ju

Um comentário sobre “O desejo de resolver tudo, e a auto-piedade (Self Compassion)”
Show de bola!! Adorei